PRP “de verdade”: o que a ciência realmente define — e por que a técnica de preparo importa: 1 ou 2 centrifugações, qual o melhor para PRP?
- Tais Menegat
- 9 de jan.
- 3 min de leitura
1. O que é PRP segundo a literatura científica
Na literatura científica, Plasma Rico em Plaquetas (PRP) é definido como um concentrado plasmático com contagem de plaquetas acima do sangue periférico, geralmente ≥ 3 a 5 vezes o valor basal.
Essa definição não é opinativa — ela nasce dos trabalhos clássicos de Robert E. Marx, um dos pioneiros no uso clínico do PRP.Em seu estudo seminal (1998), Marx demonstrou que concentrações plaquetárias em torno de 3–4 vezes o basal estavam associadas a um aumento significativo na liberação de fatores de crescimento (PDGF, TGF-β, VEGF) e a melhores resultados clínicos em enxertos ósseos.
📌 Ponto-chave:Quando o produto final apresenta apenas 1,2–2 vezes a contagem basal, ele começa a se afastar da definição clássica de PRP e entra no território de um plasma pobremente concentrado, com impacto direto na dose biológica entregue ao tecido.
2. Por que a dupla centrifugação concentra melhor as plaquetas?
A lógica da dupla centrifugação (double spin) não é empírica — ela é física e matemática.
🔬 Primeira centrifugação (soft spin)
Separa o sangue em três camadas:
Hemácias (inferior)
Buffy coat (plaquetas + leucócitos)
Plasma (superior)
Permite coletar preferencialmente a zona próxima ao buffy coat, minimizando contaminação por hemácias.
🔬 Segunda centrifugação (hard spin)
Provoca a sedimentação das plaquetas, formando um pellet plaquetário
O plasma pobre em plaquetas (PPP) da parte superior é descartado
O pellet é ressuspenso em pequeno volume plasmático → PRP altamente concentrado
3. O que os estudos mostram ao comparar single spin vs double spin
Diversos estudos comparativos confirmam, de forma objetiva, que a dupla centrifugação produz maiores concentrações plaquetárias e melhor controle da composição celular do PRP:
Saqlain et al. (2023)
Demonstraram que protocolos de double spin resultam em maior concentração de plaquetas, com menor contaminação por hemácias e leucócitos, quando comparados ao single spin.
Gupta et al. (2020)
Observaram que o método manual de dupla centrifugação apresentou maior eficiência de captura plaquetária do que sistemas automatizados de centrifugação única.
Al-Hamed et al. (2021)
Confirmaram que PRP preparado por double spin contém concentrações significativamente mais altas de plaquetas em comparação ao single spin.
Protocolos otimizados de hard spin já demonstraram alcançar concentrações até 7,4 vezes maiores do que PRP obtido por centrifugação única.
📚 Revisões sistemáticas recentes reforçam que o método de preparo (single vs double spin, buffy coat vs plasma-based) modula diretamente a composição biológica do PRP, incluindo:
Plaquetas
Leucócitos
Proteínas plasmáticas
Vesículas extracelulares
Essa composição, por sua vez, influencia o efeito biológico e clínico do PRP.

4. O problema prático da centrifugação única: diluição com PPP
Na centrifugação única, o cenário clínico mais comum é o seguinte:
O profissional aspira um grande volume da coluna plasmática
Isso inclui:
Parte da fração rica em plaquetas
Uma quantidade relevante de PPP (plasma pobre em plaquetas)
Estudos que avaliaram protocolos de single spin mostram que, na prática, o ganho plaquetário costuma ser modesto:
Concentrações finais variando entre 1,17 a 2,15 vezes o basal
Enquanto protocolos de dupla centrifugação atingem valores mais altos, com melhor controle da fração coletada
📌 Matemática simples, não opinião:Mais PPP = menos plaquetas por mL = menos fatores de crescimento por mL.
O produto não é tóxico.Mas é biologicamente diluído.
5. Por que a presença excessiva de PPP compromete a ação clínica?
Do ponto de vista científico, a literatura converge em três pontos centrais:
1️⃣ PRP eficaz depende de dose plaquetária adequada
Revisões em ortopedia e medicina regenerativa indicam que concentrações na faixa de 3–5x o basal (ou mais) são frequentemente consideradas terapêuticas, dentro de uma janela fisiológica.
2️⃣ PPP contém poucas plaquetas
Por definição, o plasma pobre em plaquetas possui concentração semelhante ou inferior ao sangue basal. Ao misturá-lo em grande volume à fração rica, ocorre queda da concentração final por mL.
3️⃣ Dose importa
Estudos sugerem correlação entre maior dose de plaquetas/fatores de crescimento e melhores respostas clínicas, desde que dentro de limites fisiológicos.
➡️ Portanto, manter grande volume de PPP não “envenena” o PRP, mas dilui a dose terapêutica, afastando o produto da faixa de concentração originalmente descrita por Marx e outros autores.
É aqui que surge o conceito popular — porém cientificamente coerente — do chamado “PRP de mentira”.
Conclusão Dra. PRP
A maioria dos estudos demonstra que protocolos de dupla centrifugação produzem um PRP com:
Maior concentração de plaquetas
Melhor relação plaquetas/hemácias/leucócitos
Maior previsibilidade biológica
Na centrifugação única, é comum aspirar grandes volumes de plasma, misturando a fração rica em plaquetas com PPP, o que reduz significativamente a concentração final de plaquetas e fatores de crescimento.
Como a eficácia do PRP depende diretamente dessa dose plaquetária, a presença excessiva de PPP dilui o efeito biológico esperado, afastando o produto do conceito de PRP descrito por Marx e outros autores clássicos da literatura.


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